O processo de se tornar EU
“O silêncio interior é muito difícil, mas precisamos nos esforçar. No silêncio, encontraremos uma nova energia e a verdadeira unidade”
Madre Teresa de Calcutá
Individuação é o processo de se tornar EU, ou seja, não funcionar mais a partir das convenções sociais, e sim do seu EU mais profundo e puro. É não dar mais ouvidos para o que os outros pensam ou no que irão pensar; é agir da forma em que você realmente quer; sem prejudicar ninguém, pois individuação não pode ser confundida com individualismo, egoísmo e muito menos com fazer as próprias regras sociais.
Por instinto de sobrevivência, como os animais, nós não vamos na beira de uma ponte e pensamos: “ah, vou me jogar”. Só se for um suicida, alguém passando por uma depressão, com algum problema que considera muito grave. Normalmente a gente se defende, certo? Isso é instinto de sobrevivência. Um dos instintos de sobrevivência mais fortes que temos é o de viver em bando. Temos esse registro em nosso cérebro: de que se vivermos em bando, nós vamos sobreviver mais. Assim como os animais. Você vê muitos animais vivendo em bando.
Ou seja, isso é normal. Porém os humanos, para viver em bando, buscam ser aprovados e aceitos e, de forma primitiva e inconsciente, fazem uma leitura do que é aprovado e aceito — como por exemplo as opiniões das pessoas, as escolhas das pessoas e as roupas. E simplesmente entramos nesse sistema, nessas convenções sociais, nos valores, crenças e princípios. Dos outros.
Quando nascemos já existe uma linguagem acontecendo, quer dizer que já existem as dinâmicas que funcionam com aquela família. Já existe uma cultura social, religiosa e familiar; existem as opiniões e como as pessoas resolvem e reagem a cada situação. Então você já nasce entendendo que o mundo é daquele jeito. Você simplesmente entende que é assim que as coisas são, é assim que as pessoas se comportam. É assim que é a vida.
Existem três formas de cultura: religiosa, familiar e social. Elas geram crenças, valores e princípios. E você não precisa sair do país para ver uma cultura diferente: na casa ao lado, com certeza existe uma cultura diferente da sua — como por exemplo rezar ou não antes de comer, comer na mesa com todos reunidos ou não, como é a organização da casa, etc. Tudo isso é cultural.
Isso é felicidade, e só atingimos quando encontramos esse EU e vivemos um propósito. Para isso, o caminho de viver esse EU é ter a coragem de se desvincular do que os outros pensam de você ou o que eles vão pensar se você fizer as coisas que realmente quer e da maneira que realmente quer; se vestir como o EU entende que expressa quem esse EU é ou trabalhar no que te dá sentido na vida. Enfim, não importa o que seja, mas que seja EU.
Você pode estar pensando: “mas eu não ligo para o que os outros pensam”, “eu não estou nem aí para a opinião dos outros, eu vivo e sou do jeito que eu quero”, porém se essa resposta veio muito rápida na sua mente, cuidado! Se avalie, você pode sim estar individuado, entretanto se avalie com mais calma. Isso pode ser exatamente um mecanismo de resistência ou de alienação desse EU.
Podemos ainda pensar: “ah, mas eu tenho que pagar as contas. Não posso exercer a profissão que eu gostaria porque eu não vou sobreviver”. Aí está uma mentira que alguém contou para você. Se existe no seu EU um registro que é para você fazer aquilo, aquilo vai dar certo! Você vai prosperar. Precisa ter perseverança; precisa ter aceitação; precisa ter aprendizado naquilo como qualquer outro ramo, qualquer outro trabalho; precisa de um processo de maturação, de desenvolver competências. É normal. Às vezes somos muito arrogantes e muito ansiosos, queremos que as coisas deem certo de um dia para o outro. E outras vezes as pessoas se preocupam tanto com a desaprovação dos pais, do meio em que vivem, que não fazem nada.
Não importa a opinião do outro, mas o bem do outro. E fazer o bem para o outro não é fazer o que ele quer. Se não prejudicar direta ou indiretamente ninguém, então faça o que acha que tem de ser feito.
“Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”
Jacques Lacan
Quer dizer, às vezes o outro está precisando de paciência e ele não quer receber a sua paciência, mas você também não tem paciência para dar. Quando a gente consegue dar essa paciência, ou seja, dar aquilo não tem para aquele que não quer, isso é amor, é evolução. Assim dizendo: “eu deixei as minhas defesas de lado”, “eu deixei o que o outro vai pensar de lado”, “eu pensei mais no outro do que em mim mesmo”. E isso é evolução. Isso é um sinal de amor, de individuação.
Quando buscamos nos proteger, preocupados com a opinião do outro, sempre acionaremos essa persona, sempre usaremos uma personalidade preparada para lidar com o meio, aquilo que não é você e não é o que o outro precisa.
Então, isso faz de você uma pessoa alienada. Uma coisa que nos impede de nos individuarmos é o medo da solidão. Ficarmos sozinhos. Pois você pensa: “eu não vou ser aprovado”, “eu não vou ser aceito pelo outro”, “o outro vai me deixar”, “eu vou ficar sozinho”. E aí quem vai te proteger e te dar carinho? Quem vai ser o seu porto seguro? E esse medo é o que nos mantém nessa persona.
Temos então que aprender a lidar com a nossa própria solidão, pois relacionamento algum vai cobrir essa solidão, apenas o encontro com seu EU verdadeiro. Sendo assim eu não vou ter mais medo de perder as pessoas.
É natural que quando você é você de verdade, perde algumas pessoas; você tem que estar preparado para isso, pois não é todo mundo que está preparado para lidar com a verdade e a evolução do outro. Porém pessoas vão e pessoas vem, e quando você está sendo você, atrairá pessoas novas e conectadas com o seu propósito.
Nunca tenha medo de perder pessoas. Muitas pessoas que você achava que ia perder, não vai perder. E outras pessoas que você não achava que perderia, vai perder. É normal. Entretanto, se você está mantendo uma pessoa na sua vida que só se relaciona com você porque você não é você, não acha que tem alguma coisa errada nessa relação? Se alguém coloca uma condição de amor, tipo “eu te amo desde que você faça o que eu quero”, “desde que você seja o que eu aprovo”, isso não é amor. Quando o amor tem uma condição, não é amor: é controle.
Então você tem que ter paciência para que as pessoas se adaptem ao seu EU. Pois até mudar essa relação, às vezes demora um pouco; às vezes é o seu próprio esposo, namorada, pai, mãe ou amigo. É normal desse processo; é importante dar esse tempo para as pessoas se acostumarem com o seu novo EU. E você verá que essas relações serão mais saudáveis. Os seus vínculos serão muito mais fortes.
Algumas pessoas se vão, mas outras pessoas virão. Porque você será um ímã de si mesmo. Atrairá pessoas que concordam e que querem o seu EU; e essas relações são maravilhosas. Isso dá o fluxo natural da vida.
Nós só vamos viver esse EU quando abandonarmos o medo de perder as pessoas; quando perdermos o medo da crítica dos outros; quando soubermos diferenciar o que é da cultura e o que é do EU.
“Eu vou ser tudo o que EU posso ser no mundo”
Determine ser você mesmo daqui para frente. Então reveja a sua vida, reveja as suas opiniões, reveja as suas escolhas e com quem você está preocupado. Cada vez que você for se vestir, perceba se você está se vestindo para o outro ou para você.
Reflita sobre essas perguntas e depois discuta com outras pessoas sobre elas. E se estiver em grupo, discuta cada pergunta com todos do grupo:
Meditação: Medite sobre sua própria identidade, sem comparações com outras pessoas. Visualize-se encontrando sua essência única e autêntica.
Reflexão: Pergunte-se: “Ainda penso no que os outros pensam de mim, ainda busco aceitação e aprovação? Como posso me separar das influências externas e encontrar minha verdadeira individualidade?”
Prática: Tome uma decisão hoje que seja baseada em seus próprios valores e não na expectativa de outros. Vista uma roupa que tem vontade, mas tinha vergonha.
Escrita: Todas as pessoas que foram influência, admiradas por você e pessoas tiveram autoridades sobre, escreva todas as regras e contidas, o que pode e o que não podia pra essas pessoas, depois reflita se esses princípios, crenças e valores ainda cabem em sua vida. Agora escreva o que você decidi ter como valores, crenças e princípios.
Para te ajudar a afirmar esses pensamentos da Individuação na sua mente, faça essa afirmação em voz alta várias vezes ao dia: